À noite, no jantar á luz das velas um homem tem que ser um cavalheiro. Foi assim que o Zé conquistou a Maria e que a Joaquina se perdeu de amores pelo Joaquim. Nesses jantares o homem parece sempre perfeito, como se de um verdadeiro principe encantado se tratasse. Ele chega-lhe a cadeira para trás, ela senta-se e depois ele empurra a cadeira, deixando-a confortavelmente posicionada em relação à mesa. Ele pede uma garrafa de vinho mas não bebe tudo, na verdade, raramente bebe mais que um copo. O prato também é sempre algo leve, às vezes até traz mais coisas para enfeitar do que propriamente para comer. Alguns homens tentam fazer uma declaração de amor a partir de algo do restaurante chique, por exemplo, o Zé pediu a orquestra uma música romântica para poder dançar com a Maria e o Joaquim, esse terá pedido a um dos empregados para colocar na sobremesa aquele anel que vai assentar que nem uma luva no dedo da Joaquina. Depois disto, a mulher está já completamente dominada, é agora uma presa fácil para as garras de qualquer borra-botas que por aí ande. Posto isto, o homem, como que sentindo a fraqueza da mulher, pergunta-lhe se ela não quer ir a casa dele tomar um digestivo e dançar um pouco ao som de uma qualquer música romântica. Ela já se deixando envolver no caríssimo perfume que ele comprou única e exclusivamente para aquela ocasião, aceita sem colocar obstáculos. Passado uns minutos estão eles a rodopiar pela sala, e nessa altura voltam-me a entrar no pensamento o Zé e a Maria, a Joaquina e o Joaquim, é o braço dele que consegue envolver todo o corpo dela, a mão dele que vai percorrendo em direcção a Sul toda a zona das costas dela. E de repente, enquanto toda a gente esfrega os olhos, ele rouba-lhe um beijo, e outro,e outro e talvez até mais um. Aí, são as suas línguas que começam a imitar o movimento de rodopio que os corpos vinham fazendo pela sala, numa dança nada cansativa e ao mesmo tempo demasiado prazerosa. Daí a uns segundos já estão completamente nus e ela a deixá-lo conhecer e percorrer todas as estradas e passagens do seu corpo, envolveu-se por completo.
Foi um verdadeiro cavalheiro o homem, que podia muito bem ser o Zé ou o Joaquim. Num curto espaço de tempo estão casados, porque afinal de contas ele é um cavalheiro à moda antiga, um homem educado, elegante e bem parecido, enfim, o sonho de qualquer uma.
É estranho e desconfortável pensar nisto em relação aos nossos pais, mas, deve ter sido assim que o meu pai conquistou a minha mãe.
Quase todos os homens conquistam assim uma mulher, mostram-lhe uma perfeição que não existe,
Quando já estão casados há uns meses, ele começa a entrar mais vezes em casa com os sapatos sujos, ele ganha barriga, ele deixa de lhe dar o pequeno-almoço na cama, ele passa a dizer por muito escassas ocasiões o quanto a adora, ele começa a chegar mais tarde a casa, ela começa a pôr menos sal no jantar só para o irritar, ela esbanja rios de dinheiro em compras, ela começa a gostar de ser olhada por outros homens, eles começam a perder interesse.
Deve ter sido assim com o Zé a Maria, ou com o Joaquim e a Joaquina. Com o meu pai e a minha mãe não sei bem, era muito novo na altura. Só me lembro que o meu pai gritava muito e depois saía batendo muito fortemente com a porta, e depois a minha mãe ficava bastante tempo a chorar sentada em cima da cama. Aí eu nunca sabia bem o que fazer, aproximava-me sempre dela e ela agarrava-me com muita força e abraçava-me. A seguir exigia que eu lhe prometesse que quando eu conhecesse uma rapariga a ia tratar bem, com respeito e carinho. Estava no segundo ano da escola nesse momento, e, quando a minha mãe me dizia isso, eu só me punha a pensar na Débora, que era a menina por quem eu andava quedado. Só imaginava que se ela aceitasse jogar à apanhada comigo eu ia deixar sempre que ela me apanhasse e ia deixar sempre que ela fugisse. Isso afinal era uma forma de tratar bem, não era?
sábado, 15 de agosto de 2009
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